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Eu Podia - Karine Rosa



Eu podia, você sabe. Podia falar horrores de você e dizer que você me magoou e dizer que doeu e dizer que ninguém devia acreditar nas coisas que você diz. Eu podia contar daquele jantar de quarta em que você abraçou e jurou e  foi quem eu sempre achei que fosse. Pior, eu podia expor quem você foi quando se esqueceu de tudo e enfiou o dedo na ferida, como se tanta coisa tivesse ficado presa e você precisasse magoar qualquer um, qualquer um, pra doer menos aí dentro. Eu podia dizer como você me tratou como qualquer uma.

Eu podia falar mal e apontar os seus defeitos e dizer das mentiras que você conta numa tentativa frustrada de ser logo a pessoa que você queria ser. Eu podia contar daquela vez em que você desviou os olhos e fingiu que não era com você, ainda que você soubesse que era e ainda que soubesse bem da culpa que tinha. Eu podia jogar na cara todas as suas palavras vazias de quem tem muito o que falar – e fala muito – mas no fundo não diz nada além de: eu não tenho ideia do que tô falando. Eu podia falar sobre o tanto que eu apostei em você – e sobre o preço que tô pagando por essa aposta.

Eu podia te contar de como minha mãe ainda pergunta por você e quer sempre saber se você tá bem, se tá com saúde, por que não vem mais aqui em casa. Eu podia revelar que ela sempre me culpa pelo nosso fim, porque é isso o que vocês mais gostam de fazer: achar que quem erra sou sempre eu. Eu podia, realmente, te perdoar por tudo e esquecer qualquer coisa e achar que a gente conseguiria começar tudo de novo. Mas eu sei e você sabe que não é exatamente isso o que você quer.

Eu podia continuar gritando e continuar escrevendo e continuar falando para todo mundo sobre tudo o que aconteceu e me irritando porque você sequer deu a chance da gente tentar consertar. Eu podia continuar mastigando essas dores e remoendo esse passado e me questionando por que a gente acaba magoando e sendo magoado por quem a gente ama. Eu podia espalhar por aí sobre a pessoa horrível que você foi e como todos deveriam se manter afastados.

Eu podia, você sabe. Mas sabe também que o tempo passou e que, com o tempo, um pouco de maturidade é acrescentado à soma. Sabe também que eu não tenho mais saúde, nem tempo, nem disposição, nem energia para ser a menina besta que adorava uma boa briga como eu era até outro dia. Sabe também que eu aprendi algumas coisas ao longo do caminho, inclusive com você.

Por isso, de todas as coisas que eu podia te falar, falo isso: enquanto deu, você foi tudo o que eu achei que era. Enquanto deu, você me aguentou e segurou as pontas e ouviu minhas dúvidas sobre o mundo e o universo e a merda toda que a gente tá fazendo aqui. Enquanto deu, você foi – e de todas as coisas que eu quero lembrar, lembro disso: de todo o amor que você me deu e eu tentei devolver no tempo em que fiquei na sua vida. Porque o resto, o resto é só a vida sendo a vida e os defeitos sendo os nossos defeitos e polos iguais se repelindo. É só isso, sem mais conversas, sem mais reclamações, sem mais nada.

Porque eu podia, te juro, podia. Mas já não posso. Já não dá.

Karine Rosa.

O problema de não estar apaixonada - Karine Rosa


O problema de não estar apaixonada é que todo mundo quer que você esteja.
 Há algum tipo de contrato social secreto que diz que você não pode estar solteiro e feliz.
 Não dá, entende? Você tem sempre que estar pegando alguém, ou querendo pegar alguém, 
ou sofrendo porque deixou de pegar alguém. 
A gente brinca que é só a tia chata, mas no fundo, 
no fundo, todo mundo te cobra: e aí, e o namoradinho?

O problema de não estar apaixonada é que quando seus amigos vão viajar e você passa o sábado 
à noite em casa, sozinha, você acaba pensando que você tem, sim, algum problema. 
Sei lá, veio com defeito. 
Afinal, depois de ouvir tanto que você não deveria estar solteira,
 você acaba se convencendo de que estar solteira é um problema. 
Viver em uma sociedade em que é melhor estar mal acompanhado a encarar 
desafio de ser feliz sozinho
 acaba ferrando um pouco a sua cabeça.

Você está sozinha porque quer, eles dizem. Ou não dá chance. Ou fica em casa demais. 
Ou vai pra balada demais. Ou pega muitos caras na mesma noite. 
Tem sempre um motivo pra você estar sozinha, mas ninguém quer saber, 
de fato, a razão. Eles só querem mesmo é que você namore.

Ninguém tá nem aí se você não quer estar apaixonada.
Ninguém tá nem aí se você tá bem. 
Ninguém tá nem aí se você quer, antes de qualquer coisa, conhecer o mundo, 
colocar seu futuro no eixo ou qualquer coisa assim.
Ser independente antes de "depender" emocionalmente de alguém, sabe? 
Não estar apaixonado é tipo "não viver" para algumas pessoas.

O problema de não estar apaixonada é que ninguém acredita nisso.
Daí insistem e, ao insistir, acabam te machucando. E aí você tenta se apaixonar.
E aí você insiste em sentir uma falta que nem sente.
Insiste em achar o cara ideal, insiste em procurar no outro o que você deveria encontrar em si mesmo.
O problema de não estar apaixonada é que te cobram tanto que você acaba ficando em desespero.
Daí não tem muito pra onde fugir, porque, desde que o mundo é mundo, 
o desespero em qualquer coisa na vida fode tudo. 

Entendeu?


Karine Rosa.

Foi ali que a gente acabou - Karine Rosa



Foi naquela esquina ali, moço. Ele foi embora e nunca mais voltou. Eu fiquei, recolhendo os cacos do que sobrou de nós dois, porque não sou de deixar lixo no chão. E nossa história morreu ali, pra nunca mais. Duas ou três pessoas estavam na rua e serviram de público do nosso espetáculo final, mas não houve aplausos porque a encenação deixou a desejar. Não houve gritos, choros, raiva, nem nada disso que casais fazem quando brigam. Aliás, a gente não brigou, só deixou de se amar. E acho que isso dói mais que qualquer grito.
Mas se eu pudesse te contar só um segredo, eu diria que volto lá uma vez por ano para ver seencontro. Pra ver se o amor se multiplicou. Se caiu perto de uma poça d’água e sobreviveu. Sei lá, qualquer coisa. É que uma partezinha de mim ainda acha que nossos caminhos vão se cruzar e coisa e tal. Uma parte de mim acha que qualquer dia eu esbarro com ele na mesma esquina. E a gente se abraça e esquece tudo.
É culpa da quantidade de desenhos de príncipes e princesas que eu vi na infância, moço. Mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tanta decepção, eu ainda espero o final feliz. Acho que tudo é uma questão de querer ter controle da minha história, sabe? Eu não aceito que uma coisa que eu queria tanto não conseguiu acontecer.
Mas me diz. Você, que vive por aí 
sem
 se agarrar a nada, já esbarrou com ele pelo mundo? Tá bem? Saudável? Inteiro? Meu maior medo, moço, sempre foi que ele quebrasse. Que não aguentasse. Que ficasse partido de novo, em pedacinhos, como no dia em que a gente acabou. E acho que é um pouco por isso que eu nunca fui atrás: chega uma hora em que a gente não quer ver quem a gente gosta sofrendo.

Eu sofri, moço. Mas também fiz sofrer e admito. É que todo mundo erra, e ama errado porque não sabe direito como é amar. E fala besteira. E não dá carinho quando devia. E tem dia que queria só ficar sozinho. Todo mundo, moço. E eu não sou perfeita. E naquele dia, quando ele foi embora daquela esquina, eu gritei pra ele nunca mais voltar. E ele não voltou, moço.
Nem sei porque tô te contando tudo isso, é que hoje eu sonhei com ele. E passei por aqui e vi aquela esquina. E meu passado voltou com tudo e me deu um murro no estômago. E eu tive que aceitar as escolhas que fiz e que deixei que fizessem por mim. E aí doeu de novo, doeu muito. Mas agora, moço, agora a vida continua. E eu vou pra outras esquinas, ver se o amor fugiu para alguma delas. Ver se encontrou um novo dono. Qualquer coisa. Porque é assim que a vida é. Não é, moço?
KARINE ROSA.

"A Hora Certa" - Karine Rosa


E se fosse daqui cinco anos? Se eu já tivesse com a vida feita, os planos traçados, com as prestações do carro encerradas? Daria? Eu entendo que agora não dê, tua vida tá aí uma loucura e eu ando tentando colocar a minha vida no eixo. É que não acontece sempre. A gente não esbarra com o amor todo dia. E deixar, conscientemente, que ele escape pelo tapete da porta é uma dessas coisas que dói muito fazer.
Odeio o fato do amor não bastar. Sabe? Nos filmes, bastaria. Só amor e tudo certo. Só carinho, abraços, um beijo desses com muita pegada em frente à porta de casa. Mas aqui, aqui as paredes tão descascando e eu ando imaginando como vou pagar a conta de luz. E você fica aí, me olhando, tentando arranjar a coragem que precisa pra cumprir os sonhos que sempre quis. Tentando olhar no mapa-múndi que ruas a gente segue pra poder se cruzar lá no final.
É justo a gente encontrar o amor depois que parou de procurar? Logo agora que cê vai? Logo agora que eu não posso te pedir pra ficar? Depois dos seus sonhos, será que ainda vai ter espaço pra mim? E depois dos meus planos, será que eu não encontro outro alguém? É essa indecisão que eu não suporto. Esse medo avassalador de que a vida nunca mais coloque nossos caminhos no mesmo trajeto.
Se tudo fosse uma questão de hora, eu ajustava os minutos do relógio e nos colocava em sintonia. Meu tempo encaixando com o seu. Fácil, marcava da gente se encontrar às 21h em frente à torre Eiffel pra dar um toque romântico à nossa história. Não parece mais bonito assim? Anotar na agenda um dia, mês e horário pra gente voltar a se amar? Um quase conto de fadas particular.
Mas tem tanta realidade aqui. Você vira a esquina e eu sigo reto. Daí fico, lembrando que um dia encontrei um desses caras que valem a pena. Um desses caras que eu amaria e amaria e amaria, até o fim. Fico aqui pensando que nossas mãos entrelaçavam e eu descansava minha cabeça cansada do dia no seu peito quente e acolhedor. Cê vai atrás da tua vida e eu vou ficar aqui tentando arrumar a minha. Tentando guardar o seu lugar.
E se fosse daqui cinco anos? Daria? Se a gente se esbarrar de novo, ainda vai ser igual? Quem é que a gente culpa por não ter se encontrado no momento certo? Qual o SAC pra reclamar da gente não ter conseguido sintonizar as estações? Cê me espera no seu peito? Cê acha que eu devo te esperar no meu? Cê acha que é besteira? Desculpa tantas perguntas, é que eu tô aqui tentando aceitar. Sabe? Tô meio que odiando o mundo por não ter me colocado na hora certa pra te encontrar.
Karine Rosa.

                                                       Beijos , ♥Karol